Queijo, vinho e desejo

Um conto é uma narrativa curta, que dá o seu recado. Esse é um recado que as mulheres conhecem.

“O coração é um mar, sujeito à influência da lua e dos ventos”. Machado de Assis

Foi tudo muito rápido e intenso. O dia tinha sido estressante por conta de uma discussão com o marido. Nos últimos meses ela sentia um distanciamento entre os dois, com a consequente falta de carinho e atenção. Naquela manhã de sábado ela tentou conversar sobre isso, o marido retrucou dizendo que ela era uma idiota perfeita, e que ele não tinha que dar satisfações. Ainda aos berros, bateu a porta e saiu cantando os pneus rumo ao bar, provavelmente. Ela sentiu-se ofendida, gritou, chorou e tomou um comprimido de Bromazepan para dormir. Acordou já no início da noite, o marido não havia voltado, tomou um banho, colocou um vestidinho leve e foi ao supermercado. Na sessão de vinhos ele perguntou se Malbec harmonizava com queijo Estepe. Ela levou um susto : há muito tempo ninguém se interessava por sua opinião e lhe sorria com alegria e interesse. Tentando balbuciar alguma coisa ela se desculpou e saiu apressada com seu carrinho, o coração disparado. Imediatamente vieram pensamentos e sensações que toda mulher conhece : as tentativas frustradas de aproximação com o marido, as dúvidas sobre o futuro do casamento, a rejeição ao implorar por carinho, e aquela vontade de se sentir desejada. No corredor de produtos naturais os carrinhos novamente se encontraram e ela disse, trêmula e respiração acelerada, que gostaria de experimentar Malbec com Estepe. Os carrinhos ficaram alí mesmo. Aquela noite foi uma experiência avassaladora, ela não se lembra do lugar, de quanto tempo durou; mas foi tudo. Nada à ver com vingança, foi por ela mesma. Quando chegou em casa o marido estava esparramado na cama, roncando alto, cheiro de álcool no ar. Ela olhou a cena, sorriu com superioridade e foi dormir. Dormir não, foi sonhar, como nunca antes.

É amor mesmo ?

Falar é muito fácil. Outro dia um amigo dizia que sua esposa estava triste porque ele não concordava que ela voltasse ao mercado de trabalho. Ele explicava : “Por que ela tem que voltar à trabalhar ? Ela tem tudo o que precisa e eu à amo muito !”. Aí eu interrompi e perguntei que raio de amor é esse que desconsidera os sonhos e desejos da própria esposa. E ele desconversou. Falar em amor é bonitinho, mas só falar é inútil. Amor é ação e não discurso. Quando existe algum problema sério no relacionamento, como uma traição, o que cometeu o erro dirá : “Eu sei que errei mas eu te amo !”. Será que é amor mesmo ? A palavra amor tem sido utilizada para justificar várias atitudes. Então o marido é rude mas diz que ama a sua esposa, o cidadão no trabalho fala pelas costas mas diz que não fez por mal porque gosta do seu colega, os pais punem exageradamente os seus filhos e dizem que é por amor. Amor à pátria, amor à uma religião, amor à um líder, amor à um time de futebol; o amor tem servido de justificativa para muitas guerras e barbáries. Mais um exemplo : um covarde agride sua mulher, física ou verbalmente, e depois vem dizer que à ama ! E tem gente que mata e diz que foi por amor ! Para existir em qualquer relação, o amor tem que ser construído, e isso dá trabalho, exige tempo e entrega. Eu só posso dizer que amo alguém se eu me interessar por essa pessoa e me empenhar para que ela seja melhor e mais feliz. Em certos casamentos a cumplicidade, o respeito e o sentimento desapareceram, mas a palavra amor é repetida muitas vezes. Da boca prá fora, claro. Amor é ação, é movimento. Se não for assim, é só fingimento.

Despertar de um sonho

Algo começou à incomodá-la. A sensação era de ter sido acordada de um sonho que foi bonito, alegre, mas que acabou. Ninguém gosta de ser acordado no meio de um sonho bom, mas pelo menos quando um sonho termina a pessoa desperta. E era assim que ela sentia-se : desperta, dona de si e enxergando as coisas de uma forma assustadoramente diferente. O casamento não fazia mais sentido, o marido parecia-lhe um estranho, os filhos roubavam-lhe as energias, o lar virou um calvário. Tudo mudou assim, repentinamente.”E agora?”, perguntava perplexa à si mesma. “Eu construí uma vida e agora não quero mais vivê-la!”. Bem que ela se esforçou à sonhar os sonhos antigos, mas isso não era mais possível. Pensou que tivesse ficado louca, as amigas diziam o mesmo, a mãe tinha certeza. Foi para a psicóloga, correu para a igreja, tirou férias, mas não conseguiu fugir da verdade : ela havia se transformado numa nova pessoa. Ou melhor, havia se encontrado pela primeira vez com uma mulher fabulosa que sempre existiu aprisionada dentro dela. Agora ela tinha apenas duas opções : assumir a sua essência recém descoberta ou negar a vida à essa mulher tão completa. Assumir a sua essência significaria perdas num primeiro momento, e uma vida plena mais tarde. Retroceder evitaria conflitos agora, mas levaria à uma vida sem sentido. É diante desse dilema doloroso que muitas mulheres decidem retomar sonhos ultrapassados, mesmo sabendo que isso é um pesadelo. Ela decidiu enfrentar os seus medos e todo o resto do mundo. Despertou de um sonho que não fazia mais sentido e agora segue em frente vivendo a sua verdade.

Mulher casada

Ela é casada. O marido é um bom homem : trabalhador, honesto e até um pouco carinhoso. Para eles o casamento foi a esperança de dias melhores. Estão juntos há 14 anos. Nesse período ela foi descobrindo que a vida é muito maior do que a vidinha de casada. E quando se percebe isso, uma força autônoma e visceral toma conta da alma, mente e coração da mulher. E do corpo. E o desejo é de se jogar. Para ele, a vida continua como sempre foi. Deram a largada juntos, mas cada um tomou um caminho diferente. Só não se deram conta disso. O sexo é semanal e protocolar. A mente dela vagueia em busca do novo. É fome de vida, de descobrir, de renovar. Ele se realiza no futebol de fim de semana com os amigos. O pastor da igreja falava sobre suas viagens missionárias e a vastidão do mundo; ela sonhava e tentava imaginar o dia em que conheceria lugares e pessoas. O marido não prestava atenção e seguia na sua rotina de homem casado. Um dia o trabalho exigiu que ela fosse para a cidade grande por um final de semana. Foi o suficiente : ela ligou para o pastor e disse que havia conquistado a Terra Prometida. Para o marido nem ligou, e para ele nunca mais voltou. Sim, existia amor. Mas amor que não sincroniza os passos, sonhos e desejos, é amor que vai estacionar. E amor estacionado não resiste à uma mulher que tem pressa em ser feliz.