Por que só em dezembro ?

Para a quase totalidade das pessoas o fim do ano, especialmente o mês de dezembro, traz algo de mágico e emotivo. Lembranças de natais passados, a oportunidade de reencontrar parentes e amigos nas festas que se aproximam, a expectativa de ganhar presentes, a hora de fazer um balanço sobre o ano que termina, a compulsão em elaborar uma lista de missões (quase sempre impossíveis de serem cumpridas e facilmente esquecidas !) para o ano novo, o sentido religioso; todos esses aspectos contribuem para um clima capaz de amolecer os corações mais empedernidos. Isso sem falar nas musiquinhas de Natal que evocam um tempo onde todos se consideravam mais felizes, e claro, a figura à cada ano mais folclórica do Papai Noel, assustando bebês, criando desconfiança nas crianças e enchendo de saudosismo os mais velhos. Com todas essas características específicas e tão singelas, dezembro consegue despertar uma poderosa determinação geral em contribuir com o próximo. E dá-se início à uma avalanche de campanhas de solidariedade : campanha para arrecadação de brinquedos, campanha para arrecadação de fraldas, campanha para arrecadação de alimentos, campanha para visitar os carentes e doentes, campanha para mudar o mundo ! Empresas desenvolvem peças publicitárias emocionantes, veículos de comunicação se mobilizam, os políticos até prometem trabalhar mais pelo povo sofrido. Comoção geral ! Meu Deus, isso é lindo !! Diante dessa utopia generalizada tenho algumas perguntinhas chatas, se me permitem. Por que só em dezembro ? A fome dói todos os dias, carentes precisam de amparo diariamente, doentes ressentem-se de atenção à cada hora. Por que só em dezembro ? Empresas deveriam devolver à sociedade em investimento social uma parte do muito que arrecadam, e fazer isso regular e frequentemente, e não forçar a barra tentando mostrar como ‘são boazinhas’ justamente na época do ano onde há mais disposição para as compras. Por que só em dezembro ? Jesus está vivo todos os dias do ano, e não apenas no dia 25. Por que só em dezembro ? A profusão de campanhas de solidariedade nesse período é tão grande que as pessoas ficam confusas e sem saber à quem e como ajudar. Evidentemente existem muitas pessoas, empresas e instituições que fazem da generosidade uma filosofia constante, da responsabilidade geral uma prática consagrada, e por isso são dignas de respeito e elogios. Mas por que então a disposição para ações expontâneas e de grande capacidade mobilizadora acontece apenas em dezembro e não o ano todo ? Por que será que o nosso interesse pelo outro precisa de musiquinhas e luzes coloridas para emergir ? Até quando vamos dedicar apenas alguns dias do ano para exercer o nosso dever e o nosso poder de transformar para melhor o mundo à nossa volta ?  Eu avisei que seriam perguntinhas chatas. 

Autor: Rogério Franco

Radialista, jornalista, publicitário, escritor e palestrante.

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