Perdoai os que reclamam

Conviver com alguém que reclama demais não é nada fácil. Uma pessoa que enxerga problemas em tudo, que vive insatisfeita e mal humorada é um teste de paciência para quem está por perto. Ainda bem que paciência, bem como outros sentimentos nobres como empatia e compaixão, tem limites. Esses limites são úteis pois estabelecem uma zona de segurança contra o negativismo do chato que reclama. Afastar-se é outra opção tentadora. Mas qualquer atitude para defender-se do rabugento será interpretada por ele como falta de amor, deslealdade e até traição. E mais reclamações, queixas e críticas serão proferidas contra você, que tenta apenas salvar o próprio dia. Reclamar demais é uma atitude composta por uma pitada de egoismo, duas de confusão e três de dor. Acredite, quem muito se queixa está num estado de sofrimento, mesmo que não tenha consciência disso e o ato de reclamar é um jeito de desabafar. Alguns passam a vida reclamando e criticando, o que pode indicar uma doença crônica na alma, outros desenvolvem esse comportamento diante de um acontecimento angustiante e que não foi bem aceito. Estou vivendo um momento assim. Numa agradável manhã de sábado em São Paulo, uma caminhada foi interrompida num desnível imperceptível de uma calçada, que ocasiou uma torção de pé, e resultou numa fratura de tornozelo com rompimento de ligamentos. Simples assim, bobo assim. E já se vão 30 dias de fisioterapia, muletas, andador, o pé esquerdo sem tocar o chão e a rotina interrompida. E talvez venham outros 30 dias assim, ou mais, tudo dependerá do potencial curativo de meu corpo. Essa experiência me transformou na pessoa mais chata e reclamona que conheço. E mal humorada e baixo astral. Meus amigos me dizem : “mas você é muito mole, é apenas um pé quebrado !!” E eu explico que não foi o pé, foi o tornozelo e os ligamentos e que não posso andar etc. Na verdade, eu parei de dar explicações porque não vale a pena focar energia no problema. Simplesmente dou de ombros e admito :’sou mole sim’. E em seguida penso : ‘Rogério, será que é prá tanto mesmo ? Esse tipo de coisa acontece com muita gente o tempo todo e logo estará tudo bem. Pense em quem está passando por problemas realmente graves !’ Então sinto uma certa culpa, respiro profundamente  e tento me reequilibrar emocionalmente.  Mesmo estudando há muitos anos as ferramentas de cura espiritual, o poder dos pensamentos e a força das emoções, mesmo sabendo que a aceitação, o perdão e a gratidão são capazes de criar milagres, admito que conheci agora um lado frágil do meu ser. E talvez essa seja uma das lições desse acontecimento. Reconhecer a nossa vulnerabilidade nos faz mais humanos. Uma parada forçada na rotina nos oferece o tempo necessário para refletir sobre a própria vida. E entre dúvidas, dores e novas visões acontece um crescimento pessoal e espiritual. Resistir aos fatos é inútil e nos coloca no papel de vítimas, por outro lado, acolher com gratidão as coisas boas e as nem tão boas, nos liberta. Eu acredito que tudo que acontece tem um significado, e que a gente atrai todas as nossas experiências através do que pensamos,falamos, sentimos e acreditamos. Eu sou o único responsável por tudo que se manifesta em minha vida, e isso não é maldição, é benção. O que aconteceu naquela agradável manhã de sábado foi para o meu bem. Olhar com amor para o que vivenciamos é transformador. Posso ter ficado mais chato e reclamão diante de tudo isso, mas sei que estou mais consciente.

Quando é difícil ajudar

São muitas as formas de lidar com problemas : enfrentando, fugindo ou abstraindo, por exemplo. Mas à essas atitudes, ou à falta delas, precede uma fase de introspecção, de distanciamento de tudo e de todos. É um período para organizar o mundo interior e entender melhor o que se passa do lado de fora. Reflexão é fundamental diante de problemas ou decisões que precisam ser tomadas. Mas aí mora o perigo. Você talvez conheça pessoas que diante de uma crise se isolam de tal forma que não se ajudam e nem aceitam ser ajudadas. Não ouvem sugestões, não falam o que sentem e não enxergam a saída. É como se entrassem num quarto escuro e se amarrassem aos velhos problemas, dormindo com eles, fazendo as pazes com eles. Fazendo as pazes com eles ? Sim, e a prova disso é perceber que quando deixam o seu estado de reclusão os problemas ainda estão lá, os mesmos, os de sempre. Não houve solução ou alívio, mas um conformismo nocivo. Foi uma decisão de não mudar, afinal é mais fácil conviver com as dores conhecidas do que buscar a felicidade que não se conhece. Dá muita vontade de ajudar quem se comporta (se sabota ?) assim, especialmente se for alguém que amamos, mas isso é bem complicado porque as tentativas de ajuda quase sempre são interpretadas como intromissão. O melhor é aceitar que cada um leva a vida do jeito que escolhe, mesmo que as escolhas sejam inconscientes. Quem nunca agiu de um jeito bem idiota só prá se arrepender mais tarde ? A escritora francesa do iluminismo, Madame de Stael, disse : ‘na vida você tem que escolher entre tédio e sofrimento’. Tem gente que escolhe os dois. Paciência.

Fins e recomeços

A vida é um ciclo de términos e recomeços. Por não aceitar esse ciclo natural é que sofremos, porque nos apegamos à dor que brota de algo que chegou ao fim, nos esquecendo do recomeço que vem à seguir. Perder um emprego, um amor, uma oportunidade, nada deveria ser motivo para um sofrimento extremo. Na verdade, quando ciclos se fecham podemos estar sendo livrados de situações e pessoas tóxicas. Sim, a incrível capacidade de adaptação humana aliada ao desejo de viver um amor faz a pessoa se acostumar ao inferno e pensar que está no paraíso. Então, antes de chorar por algo que saiu da sua vida pense se essa mudança não é motivo para comemorar. E tenha a certeza de que o processo de recomeço para algo novo e melhor já está em andamento. Aceitar os fins e os recomeços é como renascer à cada dia. Não despreze esse milagre.

A dor do outro e a nossa

É como se tivéssemos perdido alguém parecido com um amigo ou um filho. Alguém parecido à quem fomos no passado, com os sonhos que já tivemos, a alegria que queríamos ter, o brilho no olhar que talvez não tenhamos mais. A tragédia de Santa Maria revelou mais uma vez como sofremos com as dores que atingem quem não conhecemos. Além da empatia e do amor ao próximo, isso acontece porque imaginamos que aquele mal poderia ter acontecido com a gente ou com quem amamos. Apesar das diferenças e das particularidades que nos fazem únicos como indivíduos, a verdade é que somos todos muito iguais e estamos conectados por um fio invisível e divino, e tal como espelhos, nos enxergamos na existência do outro. A quantidade de vítimas dessa tragédia é chocante, bem como a maneira como ocorreu. Quem é jovem não deveria morrer nunca, muito menos durante uma festa. À distancia, resta-nos orar e pedir para que Deus acalente as vítimas e seus familiares. Acho que todos nós pensamos no sofrimento dessas famílias, e uma das notícias da tragédia é um fragmento dessa dor : um bombeiro localizou o celular de uma das vítimas fatais que tinha 141 chamadas perdidas de ‘MÃE’. A fumaça que asfixiou a maioria daqueles jovens e transformou em cinza os seus sonhos, ainda vai queimar por muito tempo no coração e nas lembranças de todos nós.

Seguir em frente

Perdas repentinas são fontes de grande sofrimento. A vida tem uma rotina comum para todos nós : trabalhamos, estudamos, pagamos nossas contas, sonhamos com aquilo que desejamos, fazemos planos, criamos nossos filhos, nos divertimos com os amigos, e assim a vida vai seguindo. Acreditamos ter um certo controle sobre as coisas no dia a dia, e com elas estabelecemos uma lógica. De repente tudo muda diante de um fato inesperado : um acidente que vitimou um conhecido, o diagnóstico de uma doença grave ou a morte de um parente ou amigo. Só quem já passou por algo semelhante é capaz de entender o que esses acontecimentos podem causar na vida de famílias inteiras. Há algumas semanas eu escrevi um artigo sobre a importância de prestar atenção aos sinais indicativos de que um grande problema está para ocorrer. Clique aqui para ler. Mas no artigo de hoje, o foco é nas situações inesperadas, naquelas que não mandam avisos e para as quais nunca estamos preparados. Penso se existe algo que possa ser feito para aplacar o sofrimento diante desses imprevistos. E a conclusão que chego é que não, não há como reduzir os estragos. A Bíblia diz que Jesus chorou copiosamente ao saber da morte de seu amigo Lázaro. Se Jesus, o homem perfeito e Filho de Deus sofreu assim ao perder um amigo, é claro que nós não devemos esperar sentir e reagir de forma diferente. Mas acredito que é possível preparar o nosso restabelecimento após enfrentarmos o pior. Como ? Fortalecendo a fé, a esperança e a aceitação de que as perdas fazem parte da vida. Esse fortalecimento é feito antecipadamente às grandes tristezas, e diariamente. Assim, quando chegar a nossa hora de enfrentar uma perda, sofreremos sim, mas estaremos mais dispostos à retomar a vida e seguir em frente.