Momentos completos

Os bons momentos não são eternos, mas podem ser completos, então é preciso vivê-los intensamente. No amor, na convivência com os filhos ou amigos, o que faz um relacionamento ser satisfatório é ser vivido de forma completa. É uma experiência de entrega consciente. Um dia esses relacionamentos serão lembrados com arrependimento ou alegria, dependendo se foram superficiais ou baseados na força do amor e da cumplicidade. O curioso é que parece mais fácil viver completamente os problemas e as tristezas, do que as alegrias e os prazeres. A gente coloca mais foco na dor do que no amor. Um amigo me falou que se lembra apenas dos momentos ruins na sua vida, e não dos bons. Acho que um dos principais motivos é que fomos programados para aceitar e carregar o fardo do sofrimento; sentir a leveza da alegria beira o pecado. Sabe aquele remorso que vem impiedosamente quando vemos que nossos filhos cresceram, um relacionamento acabou ou perdemos alguém muito querido para a morte ? Nos sentimos mal porque pensamos que poderíamos ter feito melhor, poderíamos ter vivido e aproveitado mais a companhia dessas pessoas. Em outras palavras : poderíamos ter sido mais completos com elas. É maravilhoso despertar para esse fato e optar viver completamente os momentos quando estamos com as pessoas que amamos, como nossos filhos, pais e amigos. O contato com elas deve ser olho no olho, sem a interferência da tv, do computador ou do smartphone. Poucas coisas tem valor verdadeiro, e essas precisam ser vividas em sua inteireza. Saudade boa vem do que vivemos completamente, saudade doída é a que fica do que foi incompleto.

Mãe

Acho muito difícil escrever sobre quatro temas : saudade, morte, amor e mãe. Esses são assuntos que dispensam o uso do intelecto e da razão, e se conectam com sentimentos e emoções profundas. Saudade não se explica, a morte ninguém aqui experimentou, amor não tem definição e mãe…É, talvez esse seja o mais complicado dos temas. Porque mãe é a personificação do amor, é a presença da saudade em muitos momentos, é a dor da ausência quando a morte se fizer presente. Amor, carinho, afeição, aprendizado, orgulho, colo quente, palavras doces, cumplicidade, generosidade, bondade : palavras são incapazes de definir o que representa a figura materna. Mãe é mãe para sempre. Não importa a idade dos filhos, não interessam as vidas vividas. Mãe é início, mas nunca fim. Mãe é o melhor dos meios. Mãe é o chão e o céu. É tudo, e mais um pouco. Mãe é Deus em forma de gente. E se sua mãe não está mais aqui, significa que ela já é gente em forma de Deus. Dito isso, acalme o seu coração, e fale sobre ela para todo o mundo. Faça um altar, plante flores em homenagem à ela. Você é parte de sua mãe hoje e amanhã. E todos os dias são dela, e para ela.

Fotografia, saudades e perdas

Existe um painel de fotos na parede bem à frente da minha mesa de trabalho no escritório em meu apartamento (acho que essa frase descritiva ficou muito longa). Algumas das fotos são muito significativas : minha filha ainda criança e depois já adulta, e sempre linda. Eu em vários momentos, incluindo aí uma em que estou com meu irmão há uns quarenta anos. Tem foto com artista famoso também. Eu tenho uma relação complicada com fotos. Adoro fotografia. Desde criança eu penso o ato de fotografar como uma mágica, quase divina, de eternizar experiências e pessoas. E é exatamente aí que a alegria encontra a angústia. Porque olhar para fotos que contam a minha vida, é enxergar as perdas que se acumularam pelo caminho. Minha filha no meu colo com cinco dias de vida, e depois com um ursinho de pelúcia aos oito anos de idade; eu no estúdio da 96 FM, começando em rádio e cheio de idéias; alguns amigos que na época estavam sempre ao meu lado; e eu em anos mais recentes. O ponto em comum em as todas fotos que observo enquanto escrevo esse artigo, é a constatação da perda da alegria, dos cabelos e da forma física. O tempo também afasta os amigos. Olhar para momentos, e as pessoas que fizeram parte deles, eternizados pela fotografia e não poder revivê-los, libera uma lágrima na alma. É como estar faminto, diante de um banquete, e dele não poder servir-se. Fotografia é a saudade em sua forma concreta. Eu não acredito em saudade boa. Saudade é sempre triste porque saudade é o desejo maluco de ter novamente algo bom e marcante e que nunca mais será nosso. Por isso, eu guardo centenas de fotos numa mala no alto de um armário. Não quero abrir essa mala. Não quero olhar para o que se perdeu. Não quero ser amigo da saudade; no máximo, curvar-me diante dela em respeitoso silêncio. As perdas são decorrências da vida, assim como os ganhos, e essas situações criam a dinâmica natural de nossa existência. O modo de olhar para os acontecimentos depende de cada um : o que eu sinto como saudade doída você pode encarar como doce lembrança. Seja lá como for, eu continuarei amando a fotografia e me recusando à abrir aquela mala repleta de fotos e recordações. Prefiro focar minhas lentes no agora e no futuro.

No porta retrato eu aos seis meses e meus pais