Aniversário e reflexões

São três as ocasiões que me levam à fazer um balanço mais profundo da minha vida : o fim de ano, a morte de algum conhecido e a data do meu aniversário. Na verdade, a gente deveria pensar profundamente na vida todos os dias, mas não dá tempo. O budismo chama essa atitude de inconsciência, quase um estado de sono do qual é preciso despertar para evitar o sofrimento, mesmo assim muitos de nós vive como sonâmbulos. Voltando às datas de reflexão. No fim de ano penso no que fiz e deixei de realizar nos doze últimos meses que passaram voando; diante da morte de um conhecido ou de uma celebridade, me assusto com a fragilidade e brevidade da vida e prometo para mim mesmo não mais me preocupar com bobagens, promessa esquecida horas depois. Mas é na data do meu nascimento que me sinto mais perdido em pensamentos, sentimentos e emoções. Começo à ficar ‘estranho’ uns dois dias antes, a ansiedade aumenta o coração acelera. Queria pular esse dia no calendário, ou fugir dele. Espero que as pessoas esqueçam a data e não me presenteiem. Sei que fico com cara de bobo quando me cumprimentam. Claro que todas essas neuras desaparecem ao primeiro ‘feliz aniversário’ que recebo, e então começo à sentir aquela felicidade indescritível própria de quem tem amigos queridos. Por que eu ajo assim ? Bem, são várias as explicações sobre as quais falarei em outra oportunidade. Mas o fato é que no meu aniversário faço a reflexão mais profunda sobre quem sou e como tenho levado a minha vida. Nesse balanço, algumas vezes positivo e outras nem tanto, aprendi que o mais importante é agradecer, perdoar, aceitar e acreditar. E também continuar. Note que essas cinco atitudes tem o poder de nos guiar com serenidade pela vida, e juntas, conduzem à maior de todas as atitudes : amar. Se ingredientes fossem, resultariam num delicioso bolo de aniversário, digno de ser compartilhado com todas as pessoas que queremos bem e que nos fazem ser quem somos. Aceita um pedaço ?

O recomeço após uma separação

Fui tomar café com um amigo. Assim que entrou no carro ele disse : “tenho uma prá te contar, você vai ficar de boca aberta. Me separei !”. E continuou : “eu estou lidando bem com isso (auto-engano, ninguém lida bem com isso) mas tenho me sentido muito triste, com umas dores no corpo, bem desanimado”. É, a dor emocional faz doer o corpo e a alma. Já no café ele desabafou :”é uma loucura imaginar que tudo se perdeu e será diferente, de estar sozinho no mundo. Fico imaginando como será o futuro”. Ouví atento. Era um espelho de tudo que passei quando me separei após um casamento de 20 anos. É uma avalanche de sensações que fazem sangrar : a dor da perda, a certeza de ter fracassado em algo importante e um profundo não saber em relação ao futuro. Perdemos a identidade, o amor próprio, a referência. Escolhendo as palavras, procurei compartilhar a minha experiência na intenção de ajudar um amigo. Se bem que isso é muito delicado, o que eu vivenciei pode não contribuir em nada para alguém. Falei que diante do inevitável, a separação, procurei primeiro uma psicóloga, e só depois um advogado. Isso porque eu tinha certeza de que não suportaria tudo o que estava por vir. Buscar ajuda é sinônimo de força, mas muitos homens resistem à isso acreditando que sozinhos eles darão conta, e não darão. É preciso saber virar a página de uma fase que terminou. Caso contrário, a vida ficará presa ao passado, e não será vivida em sua plenitude. Um erro comum é não aceitar que o casamento acabou, temos dificuldades com perdas. Aceitar o fato, é o princípio da retomada. Aprendí com a Dra Kátia Villanova, que me acompanhou naquele período crítico e de quem me tornei amigo, que a pergunta que devemos fazer não é POR QUE acabou, mas sim PARA QUE acabou. Tem muita diferença aí. Quando perguntamos POR QUE, estamos apenas remoendo o que já aconteceu, nos martirizando, procurando culpados. Quando perguntamos PARA QUE, estamos raciocinando onde poderemos chegar nesse novo momento, à que situação positiva a separação pode nos levar. A perspectiva é outra. Meu amigo ouvia, sem piscar. Continuei. Refletí que esse primeiro momento pós separação é ideal para se arrumar a casa, ou seja, nosso interior. Insistí que ele procure um apoio para isso. Agora não é hora de se especular sobre o futuro. Sabe aquele ditado : “Um dia de cada vez ?”. É assim que tem que ser. E lembrei que mesmo numa situação assustadora dessa, existe algo de positivo. Aí ele sorriu com desconfiança. Mas tem sim. É o momento de redescobrir-se como pessoa. De fazer o que ficou abafado durante o tempo de casado. Não que o casamento impeça alguém de viver a sua verdade, mas é muito difícil viver a individualidade no relacionamento à dois. No casamento não sobra espaço, tempo, energia e coragem para isso. Meu amigo poderia agora pegar uma bicicleta e sair por aí com uma mochila nas costas, sem ter hora para voltar. Essa nova fase permite viver um hobbie com mais intensidade. Agora é possível viajar e descobrir novos destinos. E é exatamente essa recém chegada liberdade que assusta e causa insegurança. O lugar mais seguro do mundo pode ser dentro de uma gaiola, e a gente se condiciona à isso. Quando a portinha abre, bate o desespero. Após o café, fomos embora e ao descer do carro meu amigo agradeceu as palavras. Na verdade, eu falei apenas poucas coisas sobre tudo o que pensei em dizer. Ele descobrirá por si mesmo todas as dores e vitórias de um novo caminho. Essa é a jornada de todas as pessoas que se confrontam com perdas e sofrimento. Saber levantar-se e seguir em frente é o que nos faz melhores. Recomeçar é o que nos faz humanos.

Arrumar as malas

As malas são arrumadas apenas na véspera quando vou viajar. Sempre achei que isso era preguiça e até uma certa irresponsabilidade. Mas agora entendo que arrumar as malas é assumir e aceitar que a partida é inevitável, que haverá uma mudança na rotina e que deixaremos pessoas queridas aguardando o nosso retorno. E tudo isso causa um certo stress e a gente vai protelando arrumar as malas, mesmo que a viagem seja aguardada e muito especial. E quantas vezes na vida diante de uma mudança importante, também ficamos amedrontados e paralisados ? Mudança de emprego, de relacionamento, de atitude, de pensamentos, de fazer diferente. Por melhor que seja o resultado de uma mudança, bate a insegurança. A gente tem medo de se jogar, de acertar e ser feliz. A gente tem medo de mudar o desempenho e se dar bem, medo de que a pessoa amada diga sim, medo de que os nossos projetos pessoais e profissionais sejam um sucesso. A gente tem medo do que é bom ! Parece loucura ? Sim, parece, mas analise o seu íntimo e reflita se não existe um desses medos da felicidade por aí. E o que é pior : a gente tem a mania de colocar problemas em algo que é bom, só para ter motivos de temer e não aceitar isso. Claro que todo esse processo é totalmente inconsciente e muito difícil de ser percebido. Estar disposto à experimentar o que a vida oferece de melhor é algo que dá um novo sentido à existência. Seja qual for a mudança que se coloca diante de você nesse momento, enfrente sem medo ! A minha viagem, ou seja, o meu objetivo de vida atual consiste em descobrir o novo, respirar novos ares, buscar novos sentidos. É por isso que embarco para a Europa hoje, numa viagem que será de descobertas e reflexões. As malas ? Terminei de arrumá-las apenas hoje !

Fotografia, saudades e perdas

Existe um painel de fotos na parede bem à frente da minha mesa de trabalho no escritório em meu apartamento (acho que essa frase descritiva ficou muito longa). Algumas das fotos são muito significativas : minha filha ainda criança e depois já adulta, e sempre linda. Eu em vários momentos, incluindo aí uma em que estou com meu irmão há uns quarenta anos. Tem foto com artista famoso também. Eu tenho uma relação complicada com fotos. Adoro fotografia. Desde criança eu penso o ato de fotografar como uma mágica, quase divina, de eternizar experiências e pessoas. E é exatamente aí que a alegria encontra a angústia. Porque olhar para fotos que contam a minha vida, é enxergar as perdas que se acumularam pelo caminho. Minha filha no meu colo com cinco dias de vida, e depois com um ursinho de pelúcia aos oito anos de idade; eu no estúdio da 96 FM, começando em rádio e cheio de idéias; alguns amigos que na época estavam sempre ao meu lado; e eu em anos mais recentes. O ponto em comum em as todas fotos que observo enquanto escrevo esse artigo, é a constatação da perda da alegria, dos cabelos e da forma física. O tempo também afasta os amigos. Olhar para momentos, e as pessoas que fizeram parte deles, eternizados pela fotografia e não poder revivê-los, libera uma lágrima na alma. É como estar faminto, diante de um banquete, e dele não poder servir-se. Fotografia é a saudade em sua forma concreta. Eu não acredito em saudade boa. Saudade é sempre triste porque saudade é o desejo maluco de ter novamente algo bom e marcante e que nunca mais será nosso. Por isso, eu guardo centenas de fotos numa mala no alto de um armário. Não quero abrir essa mala. Não quero olhar para o que se perdeu. Não quero ser amigo da saudade; no máximo, curvar-me diante dela em respeitoso silêncio. As perdas são decorrências da vida, assim como os ganhos, e essas situações criam a dinâmica natural de nossa existência. O modo de olhar para os acontecimentos depende de cada um : o que eu sinto como saudade doída você pode encarar como doce lembrança. Seja lá como for, eu continuarei amando a fotografia e me recusando à abrir aquela mala repleta de fotos e recordações. Prefiro focar minhas lentes no agora e no futuro.

No porta retrato eu aos seis meses e meus pais