Amor, carinho e muitas dúvidas

Dia desses uma amiga lamentava a situação atual do seu casamento de 24 anos. Ela dizia em relação ao marido :’a gente se dá bem, nos respeitamos, não existem brigas. Ele é um homem muito bom, mas simplesmente acostumamos um com o outro. Eu sinto a vida passando e essa mesmice me faz mal. O que eu sinto pelo meu marido é carinho, e não mais amor”. De todo o desabafo, confesso que essa última frase me fez pensar : “sinto carinho e não mais amor”, e vou explicar porque. Carinho é uma demonstração de amor, é a forma de vivenciar e praticar o amor. Isso significa que se existe carinho deve existir também amor, certo ? Depende. É comum o uso do termo ‘tratar com carinho’ em vários sentidos como : se relacionar com educação, tratar alguém com respeito, prestar ajuda. Essas atitudes denotam sim uma forma de amor ao próximo, mas não o amor romântico, que une os apaixonados. Por outro lado, é natural que com o passar do tempo ocorra no casamento uma transformação nesse amor, o que não significa que ele desapareceu, ou que uma separação seja a solução. Certas pessoas confessam não terem conhecido o amor intenso, visceral no relacionamento, apesar de casadas e vivendo satisfeitas, ou conformadas. São situações onde não existe certo ou errado e muito menos respostas prontas. Na história da minha amiga, será que o amor acabou mesmo ou ela que não se deu conta de que o amor maduro é naturalmente mais sereno mas nem por isso está condenado à ser rotineiro e sem sentido ? Existe aí apenas um desejo de aventurar-se ? Ou será que chegou mesmo o momento dela assumir um novo caminho, sozinha ou com outra pessoa, com a certeza de que nunca é tarde para recomeçar ? Diante desses conflitos que demandam entendimento para aceitar ou coragem para mudar, o auto conhecimento pode indicar a opção mais adequada. O que deve guiar a reflexão em cada caso é a busca consciente e honesta pela felicidade e pela paz interior.

O recomeço após uma separação

Fui tomar café com um amigo. Assim que entrou no carro ele disse : “tenho uma prá te contar, você vai ficar de boca aberta. Me separei !”. E continuou : “eu estou lidando bem com isso (auto-engano, ninguém lida bem com isso) mas tenho me sentido muito triste, com umas dores no corpo, bem desanimado”. É, a dor emocional faz doer o corpo e a alma. Já no café ele desabafou :”é uma loucura imaginar que tudo se perdeu e será diferente, de estar sozinho no mundo. Fico imaginando como será o futuro”. Ouví atento. Era um espelho de tudo que passei quando me separei após um casamento de 20 anos. É uma avalanche de sensações que fazem sangrar : a dor da perda, a certeza de ter fracassado em algo importante e um profundo não saber em relação ao futuro. Perdemos a identidade, o amor próprio, a referência. Escolhendo as palavras, procurei compartilhar a minha experiência na intenção de ajudar um amigo. Se bem que isso é muito delicado, o que eu vivenciei pode não contribuir em nada para alguém. Falei que diante do inevitável, a separação, procurei primeiro uma psicóloga, e só depois um advogado. Isso porque eu tinha certeza de que não suportaria tudo o que estava por vir. Buscar ajuda é sinônimo de força, mas muitos homens resistem à isso acreditando que sozinhos eles darão conta, e não darão. É preciso saber virar a página de uma fase que terminou. Caso contrário, a vida ficará presa ao passado, e não será vivida em sua plenitude. Um erro comum é não aceitar que o casamento acabou, temos dificuldades com perdas. Aceitar o fato, é o princípio da retomada. Aprendí com a Dra Kátia Villanova, que me acompanhou naquele período crítico e de quem me tornei amigo, que a pergunta que devemos fazer não é POR QUE acabou, mas sim PARA QUE acabou. Tem muita diferença aí. Quando perguntamos POR QUE, estamos apenas remoendo o que já aconteceu, nos martirizando, procurando culpados. Quando perguntamos PARA QUE, estamos raciocinando onde poderemos chegar nesse novo momento, à que situação positiva a separação pode nos levar. A perspectiva é outra. Meu amigo ouvia, sem piscar. Continuei. Refletí que esse primeiro momento pós separação é ideal para se arrumar a casa, ou seja, nosso interior. Insistí que ele procure um apoio para isso. Agora não é hora de se especular sobre o futuro. Sabe aquele ditado : “Um dia de cada vez ?”. É assim que tem que ser. E lembrei que mesmo numa situação assustadora dessa, existe algo de positivo. Aí ele sorriu com desconfiança. Mas tem sim. É o momento de redescobrir-se como pessoa. De fazer o que ficou abafado durante o tempo de casado. Não que o casamento impeça alguém de viver a sua verdade, mas é muito difícil viver a individualidade no relacionamento à dois. No casamento não sobra espaço, tempo, energia e coragem para isso. Meu amigo poderia agora pegar uma bicicleta e sair por aí com uma mochila nas costas, sem ter hora para voltar. Essa nova fase permite viver um hobbie com mais intensidade. Agora é possível viajar e descobrir novos destinos. E é exatamente essa recém chegada liberdade que assusta e causa insegurança. O lugar mais seguro do mundo pode ser dentro de uma gaiola, e a gente se condiciona à isso. Quando a portinha abre, bate o desespero. Após o café, fomos embora e ao descer do carro meu amigo agradeceu as palavras. Na verdade, eu falei apenas poucas coisas sobre tudo o que pensei em dizer. Ele descobrirá por si mesmo todas as dores e vitórias de um novo caminho. Essa é a jornada de todas as pessoas que se confrontam com perdas e sofrimento. Saber levantar-se e seguir em frente é o que nos faz melhores. Recomeçar é o que nos faz humanos.

Casamento sem sexo

O sexo desapareceu do casamento. E isso aconteceu de forma gradual, com o tempo. Ele começou à ficar até mais tarde na televisão e no computador, enquanto ela ia sozinha para a cama. Em outros dias ele reclamava do cansaço e do stress no trabalho. Sim, foi ele quem começou à demonstrar desinteresse. Como toda mulher, ela imaginou que ele estivesse tendo um caso. Ele negou, e não tinha mesmo. Quando tentavam transar, simplesmente não rolava, e a frustração dos dois só aumentava. Ela sentindo-se rejeitada, e ele, culpado. E impotente. Com álcool ele se animava, sem álcool faltava desejo e ereção. Ela cobrava explicações e ele não tinha respostas. Ele consultou psicólogo, terapeuta sexual e outros médicos. Nada funcionou. Aparentemente existia amor, pelo menos eles acreditavam que existia. Nas conversas era comum ele dizer :”sexo é diferente de amor. A parte do sexo não está muito legal, mas eu te amo!”. Ela ouvia e concordava, afinal, é verdade que sexo é diferente de amor. Mas num relacionamento, uma coisa complementa a outra, e as duas são importantes. O fato é que ela tinha muita vontade, e ele não. Ela pensava nas amigas e nas matérias de revistas que destacavam o sexo ardente no casamento. E também ouvia as histórias de mulheres que perderam o interesse, mas que acabavam transando pelo apetite do marido. E é assim mesmo, cada relacionamento tem as suas singularidades, e nunca é perfeito. É preciso pesar os prós e contras da relação e analisar se existem mais motivos para continuar juntos. Mas quem é que consegue ser tão racional nessas horas ? Dizer que o amor deve prevalecer e manter o casal unido pode ser muito bonito e até verdadeiro, mas e a situação da mulher ? Ela deve abrir mão da sua felicidade e realização pessoal ? E o marido, não estará ele se sabotando por alguma questão inconsciente ? Essa situação que é comum em muitos casamentos, e por motivos óbvios é pouco discutida, não permite respostas prontas. Cada casal deve buscar uma solução, que nunca será sem dor.