Fotografia, saudades e perdas

Existe um painel de fotos na parede bem à frente da minha mesa de trabalho no escritório em meu apartamento (acho que essa frase descritiva ficou muito longa). Algumas das fotos são muito significativas : minha filha ainda criança e depois já adulta, e sempre linda. Eu em vários momentos, incluindo aí uma em que estou com meu irmão há uns quarenta anos. Tem foto com artista famoso também. Eu tenho uma relação complicada com fotos. Adoro fotografia. Desde criança eu penso o ato de fotografar como uma mágica, quase divina, de eternizar experiências e pessoas. E é exatamente aí que a alegria encontra a angústia. Porque olhar para fotos que contam a minha vida, é enxergar as perdas que se acumularam pelo caminho. Minha filha no meu colo com cinco dias de vida, e depois com um ursinho de pelúcia aos oito anos de idade; eu no estúdio da 96 FM, começando em rádio e cheio de idéias; alguns amigos que na época estavam sempre ao meu lado; e eu em anos mais recentes. O ponto em comum em as todas fotos que observo enquanto escrevo esse artigo, é a constatação da perda da alegria, dos cabelos e da forma física. O tempo também afasta os amigos. Olhar para momentos, e as pessoas que fizeram parte deles, eternizados pela fotografia e não poder revivê-los, libera uma lágrima na alma. É como estar faminto, diante de um banquete, e dele não poder servir-se. Fotografia é a saudade em sua forma concreta. Eu não acredito em saudade boa. Saudade é sempre triste porque saudade é o desejo maluco de ter novamente algo bom e marcante e que nunca mais será nosso. Por isso, eu guardo centenas de fotos numa mala no alto de um armário. Não quero abrir essa mala. Não quero olhar para o que se perdeu. Não quero ser amigo da saudade; no máximo, curvar-me diante dela em respeitoso silêncio. As perdas são decorrências da vida, assim como os ganhos, e essas situações criam a dinâmica natural de nossa existência. O modo de olhar para os acontecimentos depende de cada um : o que eu sinto como saudade doída você pode encarar como doce lembrança. Seja lá como for, eu continuarei amando a fotografia e me recusando à abrir aquela mala repleta de fotos e recordações. Prefiro focar minhas lentes no agora e no futuro.

No porta retrato eu aos seis meses e meus pais

Todo dia é carnaval

Os gregos criaram o carnaval como festa religiosa, e para fazer mais sucesso adicionaram muito sexo e bebedeira. Aí o carnaval virou festa do capeta, mas muita gente que se dizia santa botava uma fantasia e partia pro inferno. No século passado as pessoas faziam nos 04 dias de carnaval o que tinham vontade de fazer nos outros 361 : beijar, trair, transar e chapar. Igual os gregos. Muitas dessas pessoas ainda estão por aí, e agora não fazem o que querem em nenhum dos 365 dias do ano, porque o carnaval já era e elas também não aguentam mais esses excessos. O radialista Silvio Carlos Simonetti dizia que o carnaval acabou porque todo dia virou um carnaval. É verdade. Não é preciso esperar nem o próximo final de semana prá curtir o que quiser; de segunda à segunda está tudo aí muito fácil, é só pegar e levar. Ninguém mais fala em realizar fantasias, até porque ninguém mais tem fantasias, não dá tempo. Cada vez mais o carnaval é aguardado como período de descanso, de recuperar as energias. Afinal, beijar, trair, transar e chapar o ano todo dá um trabalho desgraçado !