Queijo, vinho e desejo

Um conto é uma narrativa curta, que dá o seu recado. Esse é um recado que as mulheres conhecem.

“O coração é um mar, sujeito à influência da lua e dos ventos”. Machado de Assis

Foi tudo muito rápido e intenso. O dia tinha sido estressante por conta de uma discussão com o marido. Nos últimos meses ela sentia um distanciamento entre os dois, com a consequente falta de carinho e atenção. Naquela manhã de sábado ela tentou conversar sobre isso, o marido retrucou dizendo que ela era uma idiota perfeita, e que ele não tinha que dar satisfações. Ainda aos berros, bateu a porta e saiu cantando os pneus rumo ao bar, provavelmente. Ela sentiu-se ofendida, gritou, chorou e tomou um comprimido de Bromazepan para dormir. Acordou já no início da noite, o marido não havia voltado, tomou um banho, colocou um vestidinho leve e foi ao supermercado. Na sessão de vinhos ele perguntou se Malbec harmonizava com queijo Estepe. Ela levou um susto : há muito tempo ninguém se interessava por sua opinião e lhe sorria com alegria e interesse. Tentando balbuciar alguma coisa ela se desculpou e saiu apressada com seu carrinho, o coração disparado. Imediatamente vieram pensamentos e sensações que toda mulher conhece : as tentativas frustradas de aproximação com o marido, as dúvidas sobre o futuro do casamento, a rejeição ao implorar por carinho, e aquela vontade de se sentir desejada. No corredor de produtos naturais os carrinhos novamente se encontraram e ela disse, trêmula e respiração acelerada, que gostaria de experimentar Malbec com Estepe. Os carrinhos ficaram alí mesmo. Aquela noite foi uma experiência avassaladora, ela não se lembra do lugar, de quanto tempo durou; mas foi tudo. Nada à ver com vingança, foi por ela mesma. Quando chegou em casa o marido estava esparramado na cama, roncando alto, cheiro de álcool no ar. Ela olhou a cena, sorriu com superioridade e foi dormir. Dormir não, foi sonhar, como nunca antes.

Casamento sem sexo

O sexo desapareceu do casamento. E isso aconteceu de forma gradual, com o tempo. Ele começou à ficar até mais tarde na televisão e no computador, enquanto ela ia sozinha para a cama. Em outros dias ele reclamava do cansaço e do stress no trabalho. Sim, foi ele quem começou à demonstrar desinteresse. Como toda mulher, ela imaginou que ele estivesse tendo um caso. Ele negou, e não tinha mesmo. Quando tentavam transar, simplesmente não rolava, e a frustração dos dois só aumentava. Ela sentindo-se rejeitada, e ele, culpado. E impotente. Com álcool ele se animava, sem álcool faltava desejo e ereção. Ela cobrava explicações e ele não tinha respostas. Ele consultou psicólogo, terapeuta sexual e outros médicos. Nada funcionou. Aparentemente existia amor, pelo menos eles acreditavam que existia. Nas conversas era comum ele dizer :”sexo é diferente de amor. A parte do sexo não está muito legal, mas eu te amo!”. Ela ouvia e concordava, afinal, é verdade que sexo é diferente de amor. Mas num relacionamento, uma coisa complementa a outra, e as duas são importantes. O fato é que ela tinha muita vontade, e ele não. Ela pensava nas amigas e nas matérias de revistas que destacavam o sexo ardente no casamento. E também ouvia as histórias de mulheres que perderam o interesse, mas que acabavam transando pelo apetite do marido. E é assim mesmo, cada relacionamento tem as suas singularidades, e nunca é perfeito. É preciso pesar os prós e contras da relação e analisar se existem mais motivos para continuar juntos. Mas quem é que consegue ser tão racional nessas horas ? Dizer que o amor deve prevalecer e manter o casal unido pode ser muito bonito e até verdadeiro, mas e a situação da mulher ? Ela deve abrir mão da sua felicidade e realização pessoal ? E o marido, não estará ele se sabotando por alguma questão inconsciente ? Essa situação que é comum em muitos casamentos, e por motivos óbvios é pouco discutida, não permite respostas prontas. Cada casal deve buscar uma solução, que nunca será sem dor.

Conflitos do Cotidiano : o bebê

Observar como situações do cotidiano terminam em discussões pode nos preparar para evitá-las. Mas é bom aceitar que discordância não significa desamor, e muito menos resulta em ruptura; é uma característica humana. A cena descrita à seguir é um exemplo de como um simples diálogo se transforma rapidamente em um conflito.

– Você sempre muda de assunto quando eu falo do nosso filho.
– Precisamos esperar mais um pouco amor, você sabe que a grana anda curta.
– Você sempre fala isso e o tempo tá passando. Esperar mais quanto tempo ? Responde !
– Tá vendo porque não dá prá conversar ? Você fica estressada com isso !
– Eu estressada ? Eu fico enlouquecida porque você não toma uma atitude !
– Que atitude você quer que eu tome ? Você quer que eu faça uma besteira só prá te agradar ?
– Besteira ? Você está dizendo que o nosso filho é uma besteira ? Você é muito idiota mesmo !
– Idiota é você que fica com essa paranóia de ter um filho !
– Paranóia ? Eu quero ser mãe e você diz que eu sou louca ? Você que é um mimadinho e não leva nada à sério !
– Ah tá !! Eu trabalho igual um condenado, estudo e ainda ajudo a chata da sua mãe e eu sou mimado ? Vai te catar !
– Vai te catar você ! E não coloca a minha mãe no meio se não eu vou falar da bruxa da sua mãe !
– Eu não ofendí sua mãe, eu não chamei ninguém de bruxa !! Dobra essa língua !!
– Eu tenho 32 anos e preciso engravidar !!
– Putz que legal ! Então você quer ter um filho agora só por causa da sua idade ? É obrigação então ?
– Vá pro inferno !!!!

Fim da conversa.
Ela entra no quarto e bate a porta.
Ele abre uma cerveja e se joga no sofá.
Duas pessoas que se amam defendendo suas razões.
Nada mais humano.

Despertar de um sonho

Algo começou à incomodá-la. A sensação era de ter sido acordada de um sonho que foi bonito, alegre, mas que acabou. Ninguém gosta de ser acordado no meio de um sonho bom, mas pelo menos quando um sonho termina a pessoa desperta. E era assim que ela sentia-se : desperta, dona de si e enxergando as coisas de uma forma assustadoramente diferente. O casamento não fazia mais sentido, o marido parecia-lhe um estranho, os filhos roubavam-lhe as energias, o lar virou um calvário. Tudo mudou assim, repentinamente.”E agora?”, perguntava perplexa à si mesma. “Eu construí uma vida e agora não quero mais vivê-la!”. Bem que ela se esforçou à sonhar os sonhos antigos, mas isso não era mais possível. Pensou que tivesse ficado louca, as amigas diziam o mesmo, a mãe tinha certeza. Foi para a psicóloga, correu para a igreja, tirou férias, mas não conseguiu fugir da verdade : ela havia se transformado numa nova pessoa. Ou melhor, havia se encontrado pela primeira vez com uma mulher fabulosa que sempre existiu aprisionada dentro dela. Agora ela tinha apenas duas opções : assumir a sua essência recém descoberta ou negar a vida à essa mulher tão completa. Assumir a sua essência significaria perdas num primeiro momento, e uma vida plena mais tarde. Retroceder evitaria conflitos agora, mas levaria à uma vida sem sentido. É diante desse dilema doloroso que muitas mulheres decidem retomar sonhos ultrapassados, mesmo sabendo que isso é um pesadelo. Ela decidiu enfrentar os seus medos e todo o resto do mundo. Despertou de um sonho que não fazia mais sentido e agora segue em frente vivendo a sua verdade.

Apaixonada na eternidade

Ela entrava de cabeça nas relações. Apaixonada, largava o emprego, esquecia a família e se afastava das amigas. O namorado da vez seria o amor para toda a vida. E muitos foram esses amores eternos. Até que ele apareceu. E dessa vez ela entrou de cabeça, corpo e alma. O sexo era bom, o sorriso sereno, o abraço protetor. Juntos, cada momento era arrebatador. Não importava que ele era casado e pai de dois filhos. A mão alertou, claro, ela nem ouviu. Quando tudo é muito bom existe o medo de que acabe. Como era perfeito, seria para sempre, pensava. Mas como o perfeito não existe, ele terminou o relacionamento. Ela surtou, engoliu 08 comprimidos de Bromazepan e apagou. Por um milagre foi salva. Com remorso, ele reatou para novamente terminar 16 dias depois. Então ela foi à igreja quase vazia numa terça feira de manhã, num horário em que os fiéis estão trabalhando pelo pão de cada dia. Quando a navalha que pertencera ao avó cravou forte no pulso esquerdo, ela ainda teve tempo de pedir à Deus que finalmente lhe desse um amor de verdade, pela eternidade, fosse no céu ou no inferno. Como das outras vezes, ela havia resumido a sua existência à uma história de amor. Acabou a história, não fazia mais sentido viver.