Depois dos 50

Depois dos 50 anos de idade vamos nos livrando de certos pesos nas costas. Tiramos da mochila o peso da vaidade e o da critica fácil, o fardo de ter razão em tudo e o de buscar aprovação alheia. Entendemos que a noção de certo e errado depende de cada pessoa e isso deve ser respeitado, então, deixamos de lado as regras que ensinam coisas do tipo ‘como convencer o outro’ ou ‘como conseguir tudo o que você quer’. Porque nessa fase a gente quer mesmo é viver em paz. E dinheiro, viagens, noites de sono tranquilas, encontros com amigos, e queremos que nos queiram. O que mudou é que queremos ao nosso lado não mais quem nos escolheu, e sim, as pessoas que escolhemos. Isso explica porque depois dos 50 muitos relacionamentos, já desgastados, chegam ao fim, sejam relacionamentos de amizade ou amorosos. Há poucos anos era comum chamar de ‘velho sem vergonha’ o cinquentão que saiu de um casamento e buscava um novo relacionamento. Sempre achei esse tipo de comentário pura maldade, fosse direcionado para um homem ou uma mulher. E hoje eu entendo que quem age assim é de fato um velho sem vergonha…sem vergonha de ser feliz, de buscar os sonhos que não envelheceram, de empreender a significativa jornada rumo ao seu direito de ser quem nasceu para ser. Essa guinada acontece também no aspecto profissional. Não são poucos os homens nessa idade que decidem parar de trabalhar para um chefe ou empresário idiota, em ambientes tóxicos, ao lado de jovens colegas já contaminados pelas práticas de gestão autoritária do parvo de plantão, e partem para novas empreitadas cujo destino é a realização pessoal através do trabalho. Essa viagem muitas vezes é para dentro de si mesmos ao encontro de tesouros inexplorados, talentos e habilidades que eram vistas apenas como hobbies – cozinhar, escrever, ensinar, tocar um instrumento, palestrar – e que agora podem se transformar numa profissão rentável e verdadeiramente satisfatória. E sem um inepto ao lado para dar ordens. A consciência de valorizar o bem estar engloba cuidar mais da saúde física e também da emocional, e isso se reflete numa postura menos crítica e de maior aceitação dos acontecimentos. Claro que nem tudo são flores, principalmente para aqueles que, ao sentirem a chegada dos anos se revoltam, algumas vezes ficando irritadiços, outras vezes, rabugentos. Porque a chegada dos 50 anos tem diferentes significados para cada homem, isso depende do interesse ou não de buscar o autoconhecimento. Para mim tem sido positivo e minha família por vezes estranha essa fase mais zen. Dia desses minha mulher reclamou do meu recém conquistado equilíbrio diante de certos acontecimentos do cotidiano que para ela são estressantes. Eu respondi que depois dos 50 a gente se surpreende menos com as atitudes negativas dos outros e com os desandos desse mundo, e acho que isso ocorre por dois motivos. Primeiro : estamos relativamente calejados. Segundo : desenvolvemos a humildade de reconhecer nossos limites e nossa capacidade de agir. Em outras palavras, se não está em nosso raio de influência e ação é melhor aceitar as coisas como são. E nada a ver com frieza ou depressão, pois a capacidade de se emocionar está presente, e até já aprendemos que homem pode chorar sim. Percebo que minha filha também anda desconfiada com a minha postura menos crítica, mais compreensiva, leve e serena; cabeça boa para criar filhos é essa de agora, e se já estão criados, pelo menos é possível apoiá-los com um amor sem reservas. E ensiná-los a sonhar os grandes sonhos, como acreditar num país mais justo e um mundo sem guerras, acreditar que a meditação, as boas palavras e os bons pensamentos criam realidades impregnadas de um amor capaz de envolver toda a humanidade; acreditar que a música, os livros e as artes são transformadores, e que tudo é possível desde que tenhamos fé e coragem de ser quem somos, e o que importa é ser. Sonhos impossíveis que nos fazem possíveis. Porque depois dos 50 aprendemos a sonhar os sonhos que nos fazem recomeçar, acreditar e seguir em frente.

Hoje eu completo 53 anos de idade e tenho me esforçado para me livrar daqueles pesos inúteis que insistem em preencher a mochila da vida. Esse é um processo gradual, felizmente. Porque na busca de suavizar a carga eu vou me conhecendo e reconhecendo. Ainda trago meus pesos, mas uma leveza inebriante já me permite sentir a felicidade de poder voar cada vez mais alto.

Autor: Rogério Franco

Radialista, jornalista, publicitário, escritor e palestrante.

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