Quem responderá por 581 mortes ?

A manchete de hoje no Jornal da Cidade causa arrepios à qualquer cidadão e mostra o dantesco quadro da saúde em Bauru :”Em três anos e meio, 581 mortes na fila de espera por hospital”, leia aqui. A matéria da jornalista Tisa Moraes mostra que o Ministério Público Federal solicitou a instauração de inquérito policial para investigar as responsabilidades do poder público nessas mortes. O Procurador da República Pedro Antonio de Oliveira Machado solicitou à Polícia Civil a apuração da existência de crimes de homicídio culposo, omissão de socorro e maus tratos. Machado também pediu informações ao prefeito Rodrigo Agostinho, à Secretaria Municipal de Saúde, à Secretaria de Estado da Saúde e ao Ministério da Saúde sobre as providências que estão sendo tomadas para o enfrentamento do problema. O Procurador determinou que o município e o Estado forneçam certidões aos pacientes esclarecendo o porque do não atendimento e internação, bem como a divulgação dos nomes dos médicos que atuam nas unidades de saúde e a escala de trabalho de cada um deles. A prefeitura também deverá instalar ponto eletrônico de frequência para os servidores vinculados ao SUS. O quanto os esforços do Ministério Público Federal e do Procurador da República resultarão na melhoria do atendimento de saúde e do respeito aos direitos básicos do cidadão, precisaremos de tempo para avaliar. Até porque, os responsáveis pelo descalabro da saúde em Bauru tem recursos e argumentação de sobra para se defender, além do poder dos cargos que ocupam. De qualquer forma, a interferência da Justiça já é um alento, uma resposta à uma sociedade duplamente afligida e indignada : tanto pelo descaso na saúde como pela passividade e omissão dos seus gestores diante de tanto sofrimento. A esperança de que 581 mortes não passarão impunes sinaliza para um momento mais justo e humano na história dessa cidade em que vivemos e amamos.

O milagre do aparecimento de vagas nos hospitais

Horas após o prefeito Rodrigo Agostinho decretar estado de calamidade pública na assistência hospitalar de Bauru, o que parecia impossível aconteceu : a fila de pacientes que aguardavam vagas nos hospitais da cidade caiu 65 % !! Um verdadeiro milagre, considerando que nos últimos meses a toda poderosa Famesp, através de sua inatingível central de vagas afirmava ser impossível atender de maneira minimamente eficiente a demanda da cidade, postura que custou a vida de dezenas de bauruenses. E agora, como num passe de mágica veja o que aconteceu : na segunda-feira passada, dia 05 de agosto, 63 pessoas aguardavam por vagas, já na sexta-feira, dia 09, esse número caiu para 22 pessoas, e no dia em que foi anunciado o decreto, 08, quinta-feira, 20 leitos de internação foram liberados. Para comparar : no sábado (dia 03) e domingo (dia 04) anteriores ao decreto foram liberados zero e 03 leitos respectivamente. A explicação oficial é que o Departamento Estadual de Saúde bloqueou o acesso de pacientes de cidades da região para Bauru, mas, será que apenas essa medida foi suficiente para esse aumento expressivo na oferta de leitos ? Ou será que antes do decreto existiam leitos que não eram disponibilizados por conta de alguma forma de gestão desumana onde prevalecem outros interesses ? Seja como for, o fato é que essa posição do Estado em impedir o acesso de pacientes aos hospitais de Bauru não será mantida por muito tempo, o que significa que o caos foi provisoriamente contornado, apenas isso. A alternativa é o município receber um repasse do Governo Federal que garantiria a contratação de leitos nos hospitais particulares de Bauru e região. Falamos no início sobre milagres, então é bom deixar claro que o santo não é o Rodrigo Agostinho, nem a Famesp, nem o Governo Estadual ou Federal. O nome do santo milagreiro, que livra do sofrimento e da morte nos corredores do Pronto Socorro e das UPAs é Ministério Público Estadual, diante do qual políticos e gestores da saúde são obrigados à prestar contas. Esse santo não perdoa. Amém.

Todo pai

Todo pai sente orgulho em ser pai, mesmo com a certeza que é da mãe que os filhos gostam mais. Todo pai reconhece possuir uma visão especial para enxergar problemas, muitas vezes irreais, nas escolhas que os filhos fazem, desde a roupa até a profissão, passando pelos amigos, tatuagens e diversão. Todo pai é implicante, um tanto confuso,  e  quase sempre stressado. Todo pai gostaria de ser mais amigo do que disciplinador, mas acha muito difícil avaliar qual o momento de ser um ou outro, bem como a dose certa para cada um desses papéis.  Todo pai erra o timing : quando o filho espera um carinho ele vem com repreensão, quando o filho reconhece a necessidade de limites, lá vem o pai oferecendo um copo de cerveja. Todo pai sente culpa por não ter sido um pai melhor, e sente remorso quando se descontrola na tentativa de orientar. Todo pai é um menino. Todo pai quer ser diferente e melhor do que foi o seu pai. Todo pai torce para que os filhos não tenham os seus defeitos e fraquezas, e que tenham mais coragem, mais sucesso, mais alegrias. Todo pai tem seus traumas de infância que invariavelmente acabam traumatizando também os filhos. Alguns pais são ausentes, mas todos de alguma forma estão presentes, mesmo os que se foram.  Durante uma parte da vida os filhos esperam que os seus pais sejam perfeitos, depois entendem que Pai perfeito só existe um, no céu. Com o passar dos anos os filhos aceitam seus pais do jeito que são, é quando eles mesmos, os filhos, já são também pais. A essência humana se completa nos encontros, portanto, que pais e filhos, dois lados de uma mesma moeda, continuem juntos nessa jornada tão desafiadora, repleta de conflitos, aprendizagem e amor. E que segue além da vida.

Gestão da saúde em Bauru é calamidade pública

A assustadora situação da saúde em Bauru tem sido notícia nos meios de comunicação nos últimos meses, mas essas são notícias que alguns gestores públicos preferem ignorar. Quando confrontados por jornalistas e cidadãos à respeito do tema, praticam o conhecido e hipócrita jogo do empurra, eximindo-se de responsabilidades e jogando a culpa nas costas de outros. Muitas vezes nas costas dos próprios pacientes, como se alguém escolhesse ficar doente para enfrentar filas intermináveis no Pronto Socorro Central e nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). São absurdas algumas declarações feitas em passado recente de que “as pessoas procuram o P.S. Central sem necessidade e isso contribui para o caos no atendimento” ( sem necessidade ? será que alguém vai passear no Pronto Socorro porque não tem lugar melhor para ir ?!); “a população precisa entender que não existe dinheiro para resolver o problema” (nem dinheiro, nem vontade política, nem gestão criativa e muito menos respeito à vida, certo ?); “estamos elaborando um projeto para resolver esse problema no futuro, mas dependemos de ajuda dos governos estadual e federal, e contamos com a compreensão da população” (claro ! projetos que não se concretizam, recursos que nunca chegam e a população enquanto compreende tudo isso vai enterrando os seus mortos por falta de atendimento); “os médicos não querem trabalhar para o município” (querer eles querem, mas é preciso que o salário seja condizente com a profissão e o mercado). Em relação à essa última justificativa, importante ressaltar que o problema mais grave não é a falta de médicos, e sim a falta de leitos. As 518 mortes ocorridas nos corredores do Pronto Socorro de Bauru, no período de março de 2009 à julho de 2013, foram de pessoas que aguardavam vagas em hospitais. Agora o prefeito decretou estado de calamidade pública na assistência hospitalar de Bauru. O quanto isso resolverá as angústias da população, só o tempo dirá. É bom o cidadão manter os olhos abertos, bem abertos.