O que vi no Pronto Socorro de Bauru

 

O meu amigo Luiz, de 65 anos de idade, foi levado às pressas para o Pronto Socorro Central de Bauru por conta de um mal estar relacionado à problemas cardíacos. Quando recebi a notícia dois dias depois fui visitá-lo e encontrei-o ainda numa maca no corredor, aguardando uma vaga no Hospital Estadual para fazer um urgente exame de cateterismo. Ele não era o único nessa situação em que prevalece o descaso : ao todo oito macas estavam pelos corredores, algumas com pacientes que chegaram naquele dia, outras com pacientes que estavam ali há mais tempo. Mesmo sabendo que o sistema de saúde não funciona como deveria, essa questão me toca profundamente, e então eu fui conhecer outras pessoas internadas e suas histórias.

Numa sala encontrei três senhoras com problemas cardíacos que aguardavam vagas no Hospital Estadual. Dona Julia (são fictícios os nomes das pacientes aqui mencionadas) aguardava há 18 dias, e apesar de lúcida, sentia muita dificuldade em respirar, e conseguia apenas por estar ligada à uma máquina de oxigênio.  Ao seu lado estava sua irmã que mora em São Paulo, e que às custas de muitas dificuldades viajara nos dois últimos finais de semana para lhe fazer companhia. Era a oportunidade para o marido da paciente ir para casa descansar, após passar quase 24 horas diárias, dia após dia, ao lado da esposa.

Na outra cama estava dona Vitória, uma senhora de 79 anos de idade que há 09 dias aguardava uma vaga para tratar uma insuficiência respiratória agravada por uma pneumonia. Na cadeira de acompanhante estava sua filha, desgastada pela situação, mas com aquele brilho no olhar de quem não perde a fé em Deus, apesar do descaso dos homens.

Dona Maria era a outra paciente na sala. Confiante e indignada ela reclamava dos 11 dias que estava ali esperando por uma vaga no Hospital Estadual, sem que ninguém pudesse lhe dizer quando um leito seria liberado. Após passar por uma cirurgia cardíaca ela sentiu fortes dores no peito e procurou ajuda, mas estava ali, jogada à própria sorte. Dona Maria não tinha nenhum parente, nenhuma amiga como acompanhante. Disse que a família é muito pobre, e que a greve de ônibus em Bauru naquela semana complicou ainda mais uma visita.

Na sala ao lado um senhor de nome Paulo demonstrava bom humor e durante nossa conversa ele até falou sobre uma receita de comida mineira, que eu não me lembro o nome porque dividia a minha atenção com o seu filho Pedro, esse sim revoltado com a situação do pai que, com suspeita de um grave quadro de tumor abdominal, aguardava há 12 dias por uma vaga no Hospital Estadual. E o Pedro, que ganha a vida num pequeno comércio, não conseguiu trabalhar nesse período para estar ao lado do pai; duas vítimas de uma situação inexplicável.

Os corredores do Pronto Socorro Municipal de Bauru estão repletos de histórias como essas e também de macas, onde pacientes sofrem por conta de uma burocracia diabólica e de políticos e gestores de saúde que colocam a saúde alheia em segundo plano. A burocracia cria regras desumanas que dificultam o acesso à um Hospital mantido com os nossos impostos, e os políticos e gestores da saúde nada fazem para mudar esse cenário horroroso, além das tradicionais desculpas que carecem de maior averiguação.

É verdade que esse cenário é comum em todo o Brasil, mas também é verdade que nas últimas semanas por todo o país uma onda de mudanças tomou as ruas, os gabinetes, os palácios. E quem sempre sentiu-se seguro ao desprezar as dores de pessoas comuns, foi tomado por um medo descomunal e obrigado à recuar.

Nenhum político, médico ou gestor de saúde está acima do bem e do mal, e a punição deve ser pesada contra quem trata a vida humana de maneira irresponsável. Estamos vivendo um novo período de transparência, e transparência é o que eu quero na saúde da minha cidade.

No desolador cenário do Pronto Socorro de Bauru, algo se destaca : a dedicação e o carinho dos médicos, enfermeiros e demais funcionários pelos pacientes e seus acompanhantes. Esses profissionais  apesar de muitas vezes serem considerados culpados pela situação, são na verdade tão vítimas como os pacientes, e com eles se solidarizam na dor e na indignação.  O  Pronto Socorro é apenas a porta de entrada de um sistema de saúde que tem as portas trancadas, e médicos e enfermeiros não tem o poder de abri-las.

Mas a justiça tem esse poder. O meu amigo Luiz conseguiu uma vaga no Hospital Estadual após uma ordem judicial, e esse é o caminho que os pacientes na mesma situação podem seguir. E uma pergunta fica no ar : como os leitos aparecem quando a justiça interfere ? Com a palavra, os gestores da saúde em Bauru.

O exame de cateterismo mostrou a necessidade de colocação de pontes de safena no Luiz, cirurgia que deve ocorrer nos próximos dias. Enquanto aguardo essa cirurgia do meu amigo, fico pensando se as pessoas que conheci naquela tarde no Pronto Socorro em Bauru serão atendidas à tempo de salvarem as suas vidas, ou se a morte será mais ágil do que os homens que controlam a saúde. Penso nas famílias desses pacientes, nas suas dores e frustrações sem ter à quem recorrer, humilhadas na sua fragilidade.  Teremos que conviver com isso ? Depende se continuaremos aceitando as coisas como estão ou se faremos algo para mudar.

Eu continuarei divulgando os casos escabrosos que chegarem ao meu conhecimento, e se você fizer o mesmo a gente inicia uma onda que pode ajudar à melhorar alguma coisa. Se as autoridades da saúde e da política se fingem de surdas, vamos fazer o maior barulho que pudermos, vamos buscar a justiça na Justiça. Para salvar vidas, todo esforço vale a pena.